Helder andava com a parte superior do corpo inclinada para a frente, mas o diretor da Fênix Caixeral dizia não tratar-se de bico de papagaio, e que muitas vezes o " bicho" não tinha nada, no entanto por não girar bem da cabeça andava assim todo torto. Helder queixava-se constantemente de ver seu reflexo torto do espelho; não podia passar por uma vitrina, logo parava para pentear o cabelo e ajeitar os ombros; outro problema estava na boca, os lábios eram carnudos demais para que se lhe qualificassem de garoto bonito.
Em 1974 surgiu um amor de caráter indefinido, uma vizinha que ele mal conhecera na infância clareou nesse tempo, fazendo de lâmpada no mundo dele cavernoso. Helder trabalhou durante quinze meses e onze voltas ao redor da casa de Ana Lílian, foi tomado desses vapores, e, sem que percebesse, lá se ia escorregando pelo ralo mais dois anos fora da escola. Esqueci de registrar que sua demissão do trabalho se deu por conta de uma alergia que se espalhara em todo o corpo. Contava ele 15 anos e gostava de Ana Lílian; não sei se a coceira teria alguma coisa a ver com a sua Beatriz, não estou aqui para fazer confissões de adolescente. Sei que ele serviu no Quartel General da 10ª região militar em 1977. Foi um recruta zero. Nunca deu alteração, mas também não somava nada, era inútil para a bebedeira e jamais acertou o passo na ordem unida do quartel. Foi mandado para o rancho descascar batatas. Não foi carimbado por doença venérea, o que na época não recomendava; o que se recomendava era que o soldado fosse às mulheres do Barba-Azul e Senadorzão,e, sem trololó, fizesse aquisição de pelo menos um cavalo de crista. Não teve gonorréia, mas perdeu a honra ao mérito, porque teria ido dormir (eu disse dormir) mais duas mulheres num Chateou da praia do futuro.
Helder __, mais de cinqüenta anos, portador de neurose
obsessiva, tem disfunção no sono REM (sono de rápidos movimentos oculares) desencadeado segundo o dermatologista do Pronto-Médico, Dr. Gilmário, de uma disritimia cerebral. Helder não freqüentou o jardim de infância de maneira regular, e aos 10 anos ainda não estava na escola. Como não estudasse surgiam em sua mente cidades fantásticas com personagens deslocados da Disney. A primeira Coca-cola de Helder aconteceu aos 16 anos na Fênix Caixeral, escola noturna onde era uma brasa mora! cabelos longos, idéias curtas, sapato cavalo de aço, calça boca de sino todo nos trinques, na crista da onda, um rapaz na moda apesar da melancolia.
Helder-Poeta Diferente
Helder Alexandre Ferreira Cem Sonetos de Eros
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
XCVII
A tua boca é doce como mel de cana,
E o teu caule é uma flauta em minha boca:
Num só mel transformado em poesia,
A tua voz era a minha sobremesa
Preparada no orvalho da manhã;
Num só mel transformado em oxigênio,
Para o canavial da tua voz,
Do néctar venturoso que tu és,
O vôo do meu sussurro no vazio,
Relâmpagos que tombam no plantio,
E o teu caule é uma flauta em minha boca...
Nos olhos recebias de usufruto,
Num só mel transformado em rapadura
A virtude da terra no teu corpo.
E o teu caule é uma flauta em minha boca:
Num só mel transformado em poesia,
A tua voz era a minha sobremesa
Preparada no orvalho da manhã;
Num só mel transformado em oxigênio,
Para o canavial da tua voz,
Do néctar venturoso que tu és,
O vôo do meu sussurro no vazio,
Relâmpagos que tombam no plantio,
E o teu caule é uma flauta em minha boca...
Nos olhos recebias de usufruto,
Num só mel transformado em rapadura
A virtude da terra no teu corpo.
XCVI
Nasceu em Sítios Novos; viveu no Coqueirinho.
O pai tinha carranca; a mãe era abissal.
Cantava no quintal a marcha do gelinho.
Olhou-me quase morta, recostada à porta,
Os olhos derramavam quão triste querela,
Então supus que eu era amor de sua irmã...
O pai tinha uma gráfica na Aldeota,
E um jipe guarnecido de preta capota;
Mudou-se pra Érico Mota, a rua preferida
Da mãe favorecida por mil cruzeiros novos,
Filha de Sítios Novos (uma beleza rara)!
Que aos anjos se compara o rosto da suposta,
Da qual minh'alma gosta pela eterna lei,
Com quem jamais troquei sequer um monossílabo
O pai tinha carranca; a mãe era abissal.
Cantava no quintal a marcha do gelinho.
Olhou-me quase morta, recostada à porta,
Os olhos derramavam quão triste querela,
Então supus que eu era amor de sua irmã...
O pai tinha uma gráfica na Aldeota,
E um jipe guarnecido de preta capota;
Mudou-se pra Érico Mota, a rua preferida
Da mãe favorecida por mil cruzeiros novos,
Filha de Sítios Novos (uma beleza rara)!
Que aos anjos se compara o rosto da suposta,
Da qual minh'alma gosta pela eterna lei,
Com quem jamais troquei sequer um monossílabo
XCV
Tua primeira danação foi uma beleza:
Pelos portículos, Nely, de Sítios Novos,
Equilibrava na cabeça uma cesta de ovos,
Foi teu período de esquecer sobre o colchão.
Surgindo e ressurgindo na televisão,
Tua primeira danação trampolinada...
Eh danação! Ao vivo, purpúreo clarão,
Tu, no banquete de Platão, que permitia
O esquecimento do período em que vivia,
Beijaste a boca à Diotima (e o corpo dela)
Tonto de uma orgia estranha, belo de exaustão,
Lubrificado de Eros pela danação,
No tempo em que menino, a mítica Diotima
Cantava a música mais rara e mais divina!
Pelos portículos, Nely, de Sítios Novos,
Equilibrava na cabeça uma cesta de ovos,
Foi teu período de esquecer sobre o colchão.
Surgindo e ressurgindo na televisão,
Tua primeira danação trampolinada...
Eh danação! Ao vivo, purpúreo clarão,
Tu, no banquete de Platão, que permitia
O esquecimento do período em que vivia,
Beijaste a boca à Diotima (e o corpo dela)
Tonto de uma orgia estranha, belo de exaustão,
Lubrificado de Eros pela danação,
No tempo em que menino, a mítica Diotima
Cantava a música mais rara e mais divina!
XCIII
Mansão feérica de antigos minuetos
Acena o ócio pra centúria de sonetos,
De quando em noite negra ou aurora indefinida,
Na bidimensionalidade da Avenida,
No ócio da Avenida Bezerra de Menezes,
Um trono de paixão, esplêndido mil vezes...
Havia vários meses, certo fidalgote
Corria entre os canteiros a buscar a sorte;
A muita bela da mansão vê das colinas
Aquele amor de fidalgote dobra-esquinas,
A flor da idade é semelhante a uma serpente,
Pois neste desenlace triste, de repente,
Pulsando na consorte a espada de Perseu,
O fidalgote da fidalga se perdeu.
XCIV
Que lúbricos anseios o rapaz sentia,
A alma aprisionada amado ver teria
Como reflexo d'alma aquela realeza,
A sita na mansão! A cópia da beleza!
Para os mortais de então da bela Fortaleza,
Aonde em cada ninho um pássaro canoro,
No ócio da abóbada noturna da Avenida.
__E fidalgote algum jamais entrou em frias
Situações como essas de tomar remédio,
A muito bela foi tomada pelo tédio
Entre cachorros de beiral e lájeas frias.
Um trono de paixão, esplêndido mil vezes,
No ócio da Avenida Bezerra de Menezes,
Mansão feérica de antigos minuetos
Acena o ócio pra centúria de sonetos.
Acena o ócio pra centúria de sonetos,
De quando em noite negra ou aurora indefinida,
Na bidimensionalidade da Avenida,
No ócio da Avenida Bezerra de Menezes,
Um trono de paixão, esplêndido mil vezes...
Havia vários meses, certo fidalgote
Corria entre os canteiros a buscar a sorte;
A muita bela da mansão vê das colinas
Aquele amor de fidalgote dobra-esquinas,
A flor da idade é semelhante a uma serpente,
Pois neste desenlace triste, de repente,
Pulsando na consorte a espada de Perseu,
O fidalgote da fidalga se perdeu.
XCIV
Que lúbricos anseios o rapaz sentia,
A alma aprisionada amado ver teria
Como reflexo d'alma aquela realeza,
A sita na mansão! A cópia da beleza!
Para os mortais de então da bela Fortaleza,
Aonde em cada ninho um pássaro canoro,
No ócio da abóbada noturna da Avenida.
__E fidalgote algum jamais entrou em frias
Situações como essas de tomar remédio,
A muito bela foi tomada pelo tédio
Entre cachorros de beiral e lájeas frias.
Um trono de paixão, esplêndido mil vezes,
No ócio da Avenida Bezerra de Menezes,
Mansão feérica de antigos minuetos
Acena o ócio pra centúria de sonetos.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
LXXXIII
No jipe de ir embora, a muito fria
Máquina de fazer felicidade,
Intumescendo a sensibilidade
Os movimentos d'alma em demasia;
Infância dessa estrada, a poesia,
Magia unificando os hemisférios
Dos olhos congelados de mistérios
Em tantalizações e fantasia.
Em cada infância longe amanheceu
O fogo da paixão de Prometeu,
São as cinzas do jipe pela estrada
Do sol que vai nascer no meu quintal,
Onde a brisa primeira auroreal
Acorda vezes mil a doce quadra.
LXXXIV
Rio da infância minha que povoa
De lua e cisnes brancos as pestanas,
Por onde essa mãe-d'água doidivanas
Acende os candelabros dessa loa...
Enquanto essa carcaça se esboroa,
Roçando o cisne as alvacentas plumas,
A lua sensual, beijando as dunas,
Dulcificando o sal dessa garoa...
Balroa na saudade do balseiro
Os arcos deslizando no primeiro
Crepúsculo suave da canção,
E terna, aurifulgente, a lua mansa,
Acende os candelabros da criança
Que viceja no seio da mãe-d'água.
LXXXV
Saúde oh, Lílian!... tarde e carnaval,
Porque nós somos uma tardezinha
Que desmaia de amor e tanto riso;
Nós arrastamos o maracatu
Sobre as rodas do jipe de asas cinza,
Dos galhos da algaroba assistimos
À fuga dos duendes e à fuligem
Cheirando a pão de forno na calçada.
Os teus cabelos de luas-de-mel,
Cachoeiras ardentes do meu banho,
Meu desmaio de riso e eternidade...
Esta tarde precede a nossa escada
Do arquipélago, Lílian, quando irás
De estetoscópio ouvir minha loucura.
LXXXVI
São os cachos do sol no rosto dela,
Com flores de azaléia à paisana:
Dos olhos o vermute se derrama
Por toda a geografia da janela.
A mim me basta pão e mortadela,
E o olor verde e amarelo das espigas;
De noite, no jardim, as sensitivas,
E o requeijão da lua sentinela.
Via láctea linfática suponho
Abrir uma janela para o sonho
Das harmonias mudas do meu feixe.
Que mar sem praia que nunca termina!
Em vão clama o Santelmo em pantomima,
Bebendo água salgada como um peixe.
LXXXVII
Última folha do caderno avante.
Os assuntos de cartas amorosas
Deixavam pais e mestres com as covas
Do rosto esturricadas no semblante.
Ai pastoril do nosso amor tão belo!
Na rua Érico Mota com Abílio
Martins os reis entoam nosso idílio
E voltam pro conchego do castelo.
Os postes com as lâmpadas quebradas,
Serviam de espaldares às amadas,
A rua tinha um parque na charneca.
Rua das patotas! Noites de regalo!...
Os rapazes com rabos de cavalo,
Dançando na calçada discoteca.
LXXXVIII
Eu tenho a boca roxa de beijar-te,
As minhas sobrancelhas sabem disto;
Os olhos se me escondem no benquisto
Plenilúnio da hora de sonhar-te.
As flores taciturnas dos escampos;
As frondes que este dia descortina
Nos campos, clorofila, cromatina,
As cores da saudade neste encarte
De sonhos,sete palmos desta terra
Dormindo minha paz e minha guerra
Nas cinzas do futuro do meu fado...
Oferta de luar, toda querença
Festiva de sonhar tua presença
No fogo abrasador do seio amado.
LXXXIX
Tenho este amor que o céu já não comporta
De tão real em mim no coração,
Vazio de sentir esta aflição,
Vazia intumescendo a minha aorta.
Tenho este amor à beira da loucura,
Na hora mais madura do meu tempo;
Deixei minha razão onde me sento
Ao pé da vida sonho que procura
O paraíso belo do meu canto
Ausente neste amor o desencanto
Presente por enquanto no jardim
Dos olhos de me dar a minha pena,
Nos olhos, a visão do meu poema,
Os olhos de me ver chegar ao fim.
XC
Tu tens uma alma bela de calma grandeza,
E teu farol aceso de íntimos olhares
Acende este diadema de místicos altares
Ao gosto nobre da arcangélica beleza...
Ao gosto da primeira natureza,
Esta janela à noite, oh! que tolice e tanto!
Toda a charlatanice pálida de espanto
Por ódio e falsidade está contigo à mesa.
Servindo-te contente e descontente a presa
Acende o teu cachimbo com delicadeza,
fogueira linda acesa, presa por vontade!...
__Tu, cheia de blasfema e bela de grandeza,
Acende o teu farol no coração da presa,
Vencida de paixão e de felicidade!
XCI
No plácido luar bom de luz, anêmicas,
Suspensas da amplidão do céu, anadiomênicas,
Lâmpada funeral, clareia o cadafalso...
Como dois e dois são cinco este objeto é falso;
Sei que idolátro-as mesmo sendo uma Artemisa,
Abro a janela do meu quarto, e, sem camisa,
De modo assombrado, enfim, sigo de rastros
como um poeta segue a métrica do verso,
Esta obnoxia plácida, anêmica do espesso,
Eu olho para o próprio túmulo dos astros.
__Apenas o carvão promíscuo de depois
Cintila a via láctea como um pálio aberto;
Desde mil novecentos e sessenta e dois
Imitam de bonecas pelo céu deserto.
XCII
Marilyn, é perigoso contemplá-la em sonho;
E se a contemplo seja histérico, medonho.
Marilyn fora um presente que eu ganhei dos gregos,
Tem possuído o olhar de todos os segredos.
Vou naturalizar o que se sucedera:
__É natural sonhar com quem a gente ama,
Naturalmente eu me levanto e arrumo a cama,
Vou trabalhar como se nada acontecera...
Eu desde o início que consumo tarja preta,
Mas há uma mulher fatal, de toga preta,
Dissociada da questão judiciária;
Em sua alma desde o início está presente
O sentimento desse amor proveniente
Do narcisismo de quem ela é tributária.
XCIII
Tu suportar não podes mais os dias
De cinza e coração desabitado;
Quanta severidade a selva escura,
Balindo na memória os belos dias
Felizes! de passagem no episódio...
Com água e fotossíntese viveras
A vida imaginada em belos dias,
Mas suportar não podes mais os dias.
Estás ferido nesta claridade,
Morrendo e resistindo em teu plantio,
És uma artéria aberta, estás sangrando...
Como um puma ferido, a claridade
Deste golpe de vento em tua porta
É o fantasma da tua assombração.
XCIV
No teu corpo farei o meu poema;
No céu da tua boca o solavanco;
A página do céu está em branco,
Tatuagem celeste, o diadema.
Explode coração no desencanto,
No peito sinto o tranco do fonema;
Os versos cometidos no poema
Do teu corpo, matéria transitória.
O mundo obliterado na memória
Escreve no vazio a minha história,
A glória de existir este meu canto...
Do céu da tua boca, este poema
Adentra a solidão da minha pena
E a noite em desencanto toma corpo.
XCV
Sonhei sonhos vertiginosos toda a noite,
Muitos me condenam porque eu não me emprego,
Porque não dou uma barra de sabão num prego,
Não posso ouvir clarim nem sei o que é pernoite.
De noite uma canção italiana,
Soprando pelas réguas da veneziana,
De noite um raio zenital, sangue celeste,
Impetuoso, rebentando num rebote.
A cantoria do reisado de magote,
Vai percorrendo a Avenida Leste-Oeste;
De noite a noite tomba um relâmpago egresso,
É o diamante lapidado do meu verso,
E o meu poema de beleza se engalana,
E resplandece, e sopra da veneziana.
Máquina de fazer felicidade,
Intumescendo a sensibilidade
Os movimentos d'alma em demasia;
Infância dessa estrada, a poesia,
Magia unificando os hemisférios
Dos olhos congelados de mistérios
Em tantalizações e fantasia.
Em cada infância longe amanheceu
O fogo da paixão de Prometeu,
São as cinzas do jipe pela estrada
Do sol que vai nascer no meu quintal,
Onde a brisa primeira auroreal
Acorda vezes mil a doce quadra.
LXXXIV
Rio da infância minha que povoa
De lua e cisnes brancos as pestanas,
Por onde essa mãe-d'água doidivanas
Acende os candelabros dessa loa...
Enquanto essa carcaça se esboroa,
Roçando o cisne as alvacentas plumas,
A lua sensual, beijando as dunas,
Dulcificando o sal dessa garoa...
Balroa na saudade do balseiro
Os arcos deslizando no primeiro
Crepúsculo suave da canção,
E terna, aurifulgente, a lua mansa,
Acende os candelabros da criança
Que viceja no seio da mãe-d'água.
LXXXV
Saúde oh, Lílian!... tarde e carnaval,
Porque nós somos uma tardezinha
Que desmaia de amor e tanto riso;
Nós arrastamos o maracatu
Sobre as rodas do jipe de asas cinza,
Dos galhos da algaroba assistimos
À fuga dos duendes e à fuligem
Cheirando a pão de forno na calçada.
Os teus cabelos de luas-de-mel,
Cachoeiras ardentes do meu banho,
Meu desmaio de riso e eternidade...
Esta tarde precede a nossa escada
Do arquipélago, Lílian, quando irás
De estetoscópio ouvir minha loucura.
LXXXVI
São os cachos do sol no rosto dela,
Com flores de azaléia à paisana:
Dos olhos o vermute se derrama
Por toda a geografia da janela.
A mim me basta pão e mortadela,
E o olor verde e amarelo das espigas;
De noite, no jardim, as sensitivas,
E o requeijão da lua sentinela.
Via láctea linfática suponho
Abrir uma janela para o sonho
Das harmonias mudas do meu feixe.
Que mar sem praia que nunca termina!
Em vão clama o Santelmo em pantomima,
Bebendo água salgada como um peixe.
LXXXVII
Última folha do caderno avante.
Os assuntos de cartas amorosas
Deixavam pais e mestres com as covas
Do rosto esturricadas no semblante.
Ai pastoril do nosso amor tão belo!
Na rua Érico Mota com Abílio
Martins os reis entoam nosso idílio
E voltam pro conchego do castelo.
Os postes com as lâmpadas quebradas,
Serviam de espaldares às amadas,
A rua tinha um parque na charneca.
Rua das patotas! Noites de regalo!...
Os rapazes com rabos de cavalo,
Dançando na calçada discoteca.
LXXXVIII
Eu tenho a boca roxa de beijar-te,
As minhas sobrancelhas sabem disto;
Os olhos se me escondem no benquisto
Plenilúnio da hora de sonhar-te.
As flores taciturnas dos escampos;
As frondes que este dia descortina
Nos campos, clorofila, cromatina,
As cores da saudade neste encarte
De sonhos,sete palmos desta terra
Dormindo minha paz e minha guerra
Nas cinzas do futuro do meu fado...
Oferta de luar, toda querença
Festiva de sonhar tua presença
No fogo abrasador do seio amado.
LXXXIX
Tenho este amor que o céu já não comporta
De tão real em mim no coração,
Vazio de sentir esta aflição,
Vazia intumescendo a minha aorta.
Tenho este amor à beira da loucura,
Na hora mais madura do meu tempo;
Deixei minha razão onde me sento
Ao pé da vida sonho que procura
O paraíso belo do meu canto
Ausente neste amor o desencanto
Presente por enquanto no jardim
Dos olhos de me dar a minha pena,
Nos olhos, a visão do meu poema,
Os olhos de me ver chegar ao fim.
XC
Tu tens uma alma bela de calma grandeza,
E teu farol aceso de íntimos olhares
Acende este diadema de místicos altares
Ao gosto nobre da arcangélica beleza...
Ao gosto da primeira natureza,
Esta janela à noite, oh! que tolice e tanto!
Toda a charlatanice pálida de espanto
Por ódio e falsidade está contigo à mesa.
Servindo-te contente e descontente a presa
Acende o teu cachimbo com delicadeza,
fogueira linda acesa, presa por vontade!...
__Tu, cheia de blasfema e bela de grandeza,
Acende o teu farol no coração da presa,
Vencida de paixão e de felicidade!
XCI
No plácido luar bom de luz, anêmicas,
Suspensas da amplidão do céu, anadiomênicas,
Lâmpada funeral, clareia o cadafalso...
Como dois e dois são cinco este objeto é falso;
Sei que idolátro-as mesmo sendo uma Artemisa,
Abro a janela do meu quarto, e, sem camisa,
De modo assombrado, enfim, sigo de rastros
como um poeta segue a métrica do verso,
Esta obnoxia plácida, anêmica do espesso,
Eu olho para o próprio túmulo dos astros.
__Apenas o carvão promíscuo de depois
Cintila a via láctea como um pálio aberto;
Desde mil novecentos e sessenta e dois
Imitam de bonecas pelo céu deserto.
XCII
Marilyn, é perigoso contemplá-la em sonho;
E se a contemplo seja histérico, medonho.
Marilyn fora um presente que eu ganhei dos gregos,
Tem possuído o olhar de todos os segredos.
Vou naturalizar o que se sucedera:
__É natural sonhar com quem a gente ama,
Naturalmente eu me levanto e arrumo a cama,
Vou trabalhar como se nada acontecera...
Eu desde o início que consumo tarja preta,
Mas há uma mulher fatal, de toga preta,
Dissociada da questão judiciária;
Em sua alma desde o início está presente
O sentimento desse amor proveniente
Do narcisismo de quem ela é tributária.
XCIII
Tu suportar não podes mais os dias
De cinza e coração desabitado;
Quanta severidade a selva escura,
Balindo na memória os belos dias
Felizes! de passagem no episódio...
Com água e fotossíntese viveras
A vida imaginada em belos dias,
Mas suportar não podes mais os dias.
Estás ferido nesta claridade,
Morrendo e resistindo em teu plantio,
És uma artéria aberta, estás sangrando...
Como um puma ferido, a claridade
Deste golpe de vento em tua porta
É o fantasma da tua assombração.
XCIV
No teu corpo farei o meu poema;
No céu da tua boca o solavanco;
A página do céu está em branco,
Tatuagem celeste, o diadema.
Explode coração no desencanto,
No peito sinto o tranco do fonema;
Os versos cometidos no poema
Do teu corpo, matéria transitória.
O mundo obliterado na memória
Escreve no vazio a minha história,
A glória de existir este meu canto...
Do céu da tua boca, este poema
Adentra a solidão da minha pena
E a noite em desencanto toma corpo.
XCV
Sonhei sonhos vertiginosos toda a noite,
Muitos me condenam porque eu não me emprego,
Porque não dou uma barra de sabão num prego,
Não posso ouvir clarim nem sei o que é pernoite.
De noite uma canção italiana,
Soprando pelas réguas da veneziana,
De noite um raio zenital, sangue celeste,
Impetuoso, rebentando num rebote.
A cantoria do reisado de magote,
Vai percorrendo a Avenida Leste-Oeste;
De noite a noite tomba um relâmpago egresso,
É o diamante lapidado do meu verso,
E o meu poema de beleza se engalana,
E resplandece, e sopra da veneziana.
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