quarta-feira, 17 de novembro de 2010

LXXXIII

No jipe de ir embora, a muito fria
Máquina de fazer felicidade,
Intumescendo a sensibilidade
Os movimentos d'alma em demasia;




Infância dessa estrada, a poesia,
Magia unificando os hemisférios
Dos olhos congelados de mistérios
Em tantalizações e fantasia.




Em cada infância longe amanheceu
O fogo da paixão de Prometeu,
São as cinzas do jipe pela estrada




Do sol que vai nascer no meu quintal,
Onde a brisa primeira auroreal
Acorda vezes mil a doce quadra.




LXXXIV




Rio da infância minha que povoa
De lua e cisnes brancos as pestanas,
Por onde essa mãe-d'água doidivanas
Acende os candelabros dessa loa...




Enquanto essa carcaça se esboroa,
Roçando o cisne as alvacentas plumas,
A lua sensual, beijando as dunas,
Dulcificando o sal dessa garoa...




Balroa na saudade do balseiro
Os arcos deslizando no primeiro
Crepúsculo suave da canção,




E terna, aurifulgente, a lua mansa,
Acende os candelabros da criança
Que viceja no seio da mãe-d'água.




LXXXV




Saúde oh, Lílian!... tarde e carnaval,
Porque nós somos uma tardezinha
Que desmaia de amor e tanto riso;
Nós arrastamos o maracatu




Sobre as rodas do jipe de asas cinza,
Dos galhos da algaroba assistimos
À fuga dos duendes e à fuligem
Cheirando a pão de forno na calçada.




Os teus cabelos de luas-de-mel,
Cachoeiras ardentes do meu banho,
Meu desmaio de riso e eternidade...




Esta tarde precede a nossa escada
Do arquipélago, Lílian, quando irás
De estetoscópio ouvir minha loucura.




LXXXVI




São os cachos do sol no rosto dela,
Com flores de azaléia à paisana:
Dos olhos o vermute se derrama
Por toda a geografia da janela.




A mim me basta pão e mortadela,
E o olor verde e amarelo das espigas;
De noite, no jardim, as sensitivas,
E o requeijão da lua sentinela.




Via láctea linfática suponho
Abrir uma janela para o sonho
Das harmonias mudas do meu feixe.




Que mar sem praia que nunca termina!
Em vão clama o Santelmo em pantomima,
Bebendo água salgada como um peixe.




LXXXVII




Última folha do caderno avante.
Os assuntos de cartas amorosas
Deixavam pais e mestres com as covas
Do rosto esturricadas no semblante.




Ai pastoril do nosso amor tão belo!
Na rua Érico Mota com Abílio
Martins os reis entoam nosso idílio
E voltam pro conchego do castelo.




Os postes com as lâmpadas quebradas,
Serviam de espaldares às amadas,
A rua tinha um parque na charneca.




Rua das patotas! Noites de regalo!...
Os rapazes com rabos de cavalo,
Dançando na calçada discoteca.




LXXXVIII




Eu tenho a boca roxa de beijar-te,
As minhas sobrancelhas sabem disto;
Os olhos se me escondem no benquisto
Plenilúnio da hora de sonhar-te.




As flores taciturnas dos escampos;
As frondes que este dia descortina
Nos campos, clorofila, cromatina,
As cores da saudade neste encarte




De sonhos,sete palmos desta terra
Dormindo minha paz e minha guerra
Nas cinzas do futuro do meu fado...




Oferta de luar, toda querença
Festiva de sonhar tua presença
No fogo abrasador do seio amado.




LXXXIX




Tenho este amor que o céu já não comporta
De tão real em mim no coração,
Vazio de sentir esta aflição,
Vazia intumescendo a minha aorta.




Tenho este amor à beira da loucura,
Na hora mais madura do meu tempo;
Deixei minha razão onde me sento
Ao pé da vida sonho que procura




O paraíso belo do meu canto
Ausente neste amor o desencanto
Presente por enquanto no jardim




Dos olhos de me  dar a minha pena,
Nos olhos, a visão do meu poema,
Os olhos de me ver chegar ao fim.




XC




Tu tens uma alma bela de calma grandeza,
E teu farol aceso de íntimos olhares
Acende este diadema de místicos altares
Ao gosto nobre da arcangélica beleza...




Ao gosto da primeira natureza,
Esta janela à noite, oh! que tolice e tanto!
Toda a charlatanice pálida de espanto
Por ódio e falsidade está contigo à mesa.




Servindo-te contente e descontente a presa
Acende o teu cachimbo com delicadeza,
fogueira linda acesa, presa por vontade!...




__Tu, cheia de blasfema e bela de grandeza,
Acende o teu farol no coração da presa,
Vencida de paixão e de felicidade!




XCI




No plácido luar bom de luz, anêmicas,
Suspensas da amplidão do céu, anadiomênicas,
Lâmpada funeral, clareia o cadafalso...
Como dois e dois são cinco este objeto é falso;




Sei que idolátro-as mesmo sendo uma Artemisa,
Abro a janela do meu  quarto, e, sem camisa,
De modo assombrado, enfim, sigo de rastros
como um poeta segue a métrica do verso,




Esta obnoxia plácida, anêmica do espesso,
Eu olho para o próprio túmulo dos astros.
__Apenas o carvão promíscuo de depois




Cintila a via láctea como um pálio aberto;
Desde mil novecentos e sessenta e dois
Imitam de bonecas pelo céu deserto.




XCII




Marilyn, é perigoso contemplá-la em sonho;
E se a contemplo seja histérico, medonho.
Marilyn fora um presente que eu ganhei dos gregos,
Tem possuído o olhar de todos os segredos.




Vou naturalizar o que se sucedera:
__É natural sonhar com quem a gente ama,
Naturalmente eu me levanto e arrumo a cama,
Vou trabalhar como se nada acontecera...




Eu desde o início que consumo tarja preta,
Mas há uma mulher fatal, de toga preta,
Dissociada da questão judiciária;




Em sua alma desde o início está presente
O sentimento desse amor proveniente
Do narcisismo de quem ela é tributária.




XCIII




Tu suportar não podes mais os dias
De cinza e coração desabitado;
Quanta severidade a selva escura,
Balindo na memória os belos dias




Felizes! de passagem no episódio...
Com água e fotossíntese viveras
A vida imaginada em belos dias,
Mas suportar não podes mais os dias.




Estás ferido nesta claridade,
Morrendo e resistindo em teu plantio,
És uma artéria aberta, estás sangrando...




Como um puma ferido, a claridade
Deste golpe de vento em tua porta
É o fantasma da tua assombração.




XCIV




No teu corpo farei o meu poema;
No céu da tua boca o solavanco;
A página do céu está em branco,
Tatuagem celeste, o diadema.




Explode coração no desencanto,
No peito sinto o tranco do fonema;
Os versos cometidos no poema
Do teu corpo, matéria transitória.




O mundo obliterado na memória
Escreve no vazio a minha história,
A glória de existir este meu canto...




Do céu da tua boca, este poema
Adentra a solidão da minha pena
E a noite em desencanto toma corpo.




XCV




Sonhei sonhos vertiginosos toda a noite,
Muitos me condenam porque eu não me emprego,
Porque não dou uma barra de sabão  num prego,
Não posso ouvir clarim nem sei o que é pernoite.




De noite uma canção italiana,
Soprando pelas réguas da veneziana,
De noite um raio zenital, sangue celeste,
Impetuoso, rebentando num rebote.




A cantoria do reisado de magote,
Vai percorrendo a Avenida Leste-Oeste;
De noite a noite tomba um relâmpago egresso,




É o diamante lapidado do meu verso,
E o meu poema de beleza se engalana,
E resplandece, e sopra da veneziana.









































































































































































































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