Eu pareço um camelo olhando a lua.
Não ninguém sorrindo dos teus olhos,
Além das borboletas do crepúsculo.
Oh fechas quase os olhos, mas não fechas,
Deixas entrar uns sonhos acordados,
Uma família inteira de poetas;
__Não é crime roubar o teu retrato!...
Eu te amo como um incendiário louco
Que põe fogo na casa de improviso,
É meu amor que tinge o teu retrato.
Além desta viagem que me acerca
De um gato que atravessa a rua agora,
Resistindo e morrendo é o MEU AMOR!
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETOS DE EROS
XXIII
Um por um ao cair das badaladas
De tuas luas-de-mel, no céu, suspensas,
Meus olhos alpinistas dos teus olhos,
Ardendo no verão dos teus cabelos.
A vida não nos quer pra eternidade,
E assim façamos longa essa viagem
Com cada um de nós no acostamento,
O nosso coração é um deus selvagem.
Esta noite fragrante nas janelas,
No teu pêlo segreda em pensamento;
__Fica o braço silvante da algaroba
Deslizando em teu pêlo com a chuva,
Com as luas-de-mel da nossa noite,
Beijando a tua boca em meu plantio.
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETO0S DE EROS
XXIX
Anoitecendo a noite as algarobas
Enfeitam-se com brincos de princesa;
A lua envia cartas de boa-noite
Garotada. Indiozinho da tevê,
Com sinal de nuvens coloridas,
Anuncia os meus sonhos nos teus sonhos:
Rodando em teus cabelos perco a chave
Do vôo e caio dentro dos teus olhos;
Despencam dos planetas tempestades,
Saraivas, que, do vidro da janela,
Sobrevêm na bonança do teu nome,
E os nossos balõezinhos esta noite
Tão pálida de espanto e de vazio
Ficou profundamente um céu deserto.
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETOS DE EROS.
XXX
Homero é pouco pra espalhar teu nome.
Imensos armazéns não vão conter
A tua alma frondosa, algarobeira,
E barricas de mel dentro dos olhos.
E para encher os olhos deste céu,
E para encher de mel esta colmeia
É que os anjos celebram teus cabelos
Em pé no monumento que tu és.
Vai um canalha elegíaco te rapta?
Outra guerra de Tróia se faria,
Tu és a principal das epopéias;
Tu és a mais bonita das Helenas,
Tu és tudo o que a musa antiga canta
E contém no cristal da nossa infância.
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETOS DE EROS
XXXI
Para o ciúme do astro vagabundo,
Para o alcance do céu e das centúrias,
Esse halo iridescente em tua boca
Entreaberta num beijo esmaecido.
Felizes são os bricos que te enfeitam;
Dos anjos que penteiam teus cabelos,
E dos loucos que roubam teu retrato
E o escondem nas entranhas do caderno...
Pompas, plumas, leveza soberana,
E o colo arremessado no dessel
Aonde se celebram teus cabelos...
Feliz de quem tem olhos de falcão,
E eu te devo este sonho todo azul,
E esse beijo que é teu vive comigo.
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETOS DE EROS.
XXXII
Alma rechã, erguida sobre a pedra
Dessa matéria bruta nebulosa,
És fogo disfarçado em mar tranqüilo;
Enches-me de teu lábio tão furioso.
Enches-me de tua boca conjuntiva,
Fibrosa, arborescente. Eu sobrevivo
Em bandos, alta luta, vozes secas,
Subindo das entranhas do caderno.
Alma rechã, deliciada e quente,
De toda estrela foste a minha estrela,
O amor desceu à terra e sobrevive,
E vive dessa terra que nos fez,
E nos deu vida breve, meteórica,
As vozes secas de ontem no plantio.
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETOS DE EROS.
XXXIII
Esse dia amanhece com a chuva.
Estende-te no bosque, Dulcinéia,
Quimeras se desfolham no plantio,
Manhãs decapitadas incorpóreas;
Estende-te na rede, que esta sombra
Viaja no céu dos olhos de nós dois;
Estende-te em meu sonho, em matrimônio,
Só a lua de corpo liso é que anda nua.
Quando o chão reouver teu corpo e o meu,
Fica ausente esse dia, que esse dia
Viverá amanhã, e nesse quando
Decapitar o dia a fogo e frio,
Em passos de um ferido pelo gozo,
A idade de Ouro desce com a chuva.
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETOS DE EROS.
XXXIV
A boca, os ombros, os pés, o território,
O todo intercostal e o imprevisível
Inculto e belo chão de teu repouso
Que a árvore da vida me oferece...
Na concha dessas mãos, o paraíso,
O sol pusado em mim, imenso, aberto,
Crescendo no plantio que faz gosto
O pão da liberdade inofensiva...
Transcende a força bruta da matéria,
Incorpóreo é o pão deste repouso,
As minhas mãos na terra dos teus sonhos.
Te quero acumular na minha sombra,
Eu quero ser a sombra do teu corpo,
Interpretar teus sonhos no divã.
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETOS DE EROS.
XXXV
Em borbotões o diamante salta,
Desprende em mim o leite do teu corpo:
Sanhuda, essa mulher do paraíso
Transformou em delícia a extrema-unção.
Veio o outono esfolhando as algarobas,
Carro de bois trazendo a estátua tua;
Trouxeram vendavais, lições de amor,
E o menino que havia se afogado.
Enquanto corre vida em minhas veias,
Me reparte contigo no teu corpo,
Eu quero receber a extrema-unção;
Eu quero receber mulher-serpente,
essa maçã carnal, depois morrer,
Me dissolver de amor, de puro amor!
Helder Alexandre Ferreira em 100 SONETOS DE EROS.
XXXVI
Nosso amor não existe para o tempo,
Tempo esse latifúndio onde morre;
Nosso amor é uma tarde de castanha,
A paz de uma cabana na campina
Salvo as estupidezes dos camelos,
os que se amaram como nós conhecem
De cor esta parábola ideal
Onde os peixes azuis podem voar.
Sol que funde rechedos nos altares
Virginais em botões cresce o plantio.
Sol que reparte o pão com os que no Éden
São simples de cadeiras na calçada,
No jipe anfitrião de faroletes,
Regressam para dentro da parábola.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sopnetos de Eros
XXXII
Abro a janela do teu nome. Basta
Ver as árvores e as flores lá fora
Sob onde a primavera vale a pena
Ouvir passar teu nome como um rio!...
Oh rio feminino! Tu nasceste
Dum raio que tombou no meu plantio,
E fez resplandecer o acostamento;
Na areia dessa praia as minhas mãos
Nas tuas mãos dois rios nos transbordam
De ternura e se cruzam no passado,
E como duas águas se separam
Do rio para o mar do acostamento.
E como se bifurcam, se rebelam;
Deixam cair os pomos do plantio.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros
XXXIII
Teus olhos se te foram nos meus olhos,
Eu interpreto os signos do teu sonho,
E resgato o caderno extraviado
Neste alazão de crinas assanhadas.
O amor trabalha na manhã de agosto,
Colhendo as sete letras do teu nome...
__O menino que havia se afogado
Faz bom rosto ao olhar da eternidade,
Como um lagarto imóvel na parede,
Nos espera ao crepúsculo amarelo...
E quando formos ontem, bem-amada,
Seremos desprezados dos camelos,
Mas tua boca plenetária de cinema
A terra há de beijar eternamente.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros
XXXIX
Ponho os ouvidos na caixa de música,
Na música do amor elementar:
Ouvidos escanchados no escarlate
De tua boca solferina de sorvete.
Súbito, vinhas abrir o portão
Ao teu pai, que era um prático na vida;
O jipe se inclinava na calçada
À sombra da frondosa algarobeira.
Verdade tu comias chocolates,
Tangendo o bilboquê as tuas mãos
Se despedem da flor desabitada;
Viajam com as águas, com as sombras,
As tuas mãos preservam nossa música
A bordo de uma nave espacial.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros
XL
Esta tarde também é uma mulher
Com sua flor-de-lis na cabeleira,
Banhada em sol acende a primavera
Nos pomos delicados do plantio.
Nuvens de pirilampos, sol noturno,
Esta lua celebra os teus cabelos
com as noites antigas viajando
a flor desabitada do planeta.
Este sonho desceu no acostamento
com as noites da nossa eternidade,
Tu nasceste do pólen viajeiro,
Da luz do firmamento onde cintila,
Por dádiva dos sete mil amores,
O nosso território de formigas.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros
XLI
Sonho imortal!... Desiludido aquele
Pássaro azul ferido e libertado
Da morte num combate de relâmpagos.
E sombra e raio brilham na folhagem
Desse bosque encoberto, impenetrável
Paraíso perdido de desejo.
__Via-régia! alças vôo, e nesse vôo,
desperto num combate de relâmpagos,
Teu sonho soterrado, eternamente,
Tremeluz eclipsado no clarão;
Pássaro azul, ferido no desejo,
O bosque te feriu de amor no fígado,
e eu te julguei perdido no estuário
Da lua delicada e guardiã.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros
XLII
Quantos anos a concha desta vida
Nos escombros, a pérola-desejo,
Calcinada em pedra o diamante
que um dia há de enfeitar o teu pescoço!
Quanta chuva choveu em minhas mãos
abertas para o joio e para o trigo:
Fecho os olhos no teu acostamento,
O orvalho é um velhinho transviado,
Comovedoramente ouvindo estrelas,
Mudar não sabe as terras do plantio.
A chuva de asa cinza me compele
para o declive azul que me devora
O diamante que os naos lapidam,
Que um dia há de enfietar a minha laje.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros
XLIII
Amar é uma viagem de trenzinho
Amar é despedir o velocípede
Ficar esnobe como a lua cheia
E rancoroso como a prata fria
A gente segue sendo conduzido
Por um trem que não sabe o que é amar
A gente segue sendo esta cabana
Que a paz estabelece na campina
A gente se dispôs da bicicleta
É sinal de que um trem descabelado
Arrasta a ferro e fogo esta parada
De todo carnaval toda alegria
A gente então dispôs da brincadeira
Entre uns peixes azuis e a flor do láscio
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
XLIV
Brilhando, esparsa, a luz no rosto dela,
Envolta em fulvas rimas que são dela,
Eu nunca vi mais lúbrica e mais bela
Beleza peregrina igual àquela.
Ah, que visão completa, que nascente
Estende as ilusões dentro da gente!
Nem mais a pura seda levantina
Tem mais valor que os beijos que são dela...
Ai, como era bonito o Jipe dela!
Cintilavam faróis dos olhos dela,
Cobre a noite os cabelos louros dela,
A lua desabala no olhar dela,
Fiquei desabalado ao lado dela,
A calçada era só dela e mais ninguém.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
XLV
Eu luto com palavras, contra a guerra.
Eu sou teu seguidor e necessito
De tua autoridade, e sentimento,
E pensamento, e distorção, e sonho...
E tanto, tanto, eu quero amar-te tanto,
Beijar as sete letras do teu nome
com sete línguas de fogo e uma flecha,
eu quero me ferir de amor no fígado.
Amigos meus, canalhas elegíacos,
Os remédios não servem para nada,
Não encontro expressão nem nas estrelas...
Desgraçado de mim, preso aos arpões,
Vou em carro de bois para as coivaras,
Este fogo esmorece, mas não morre.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
XLVI
O teu silêncio feito artéria aberta é rio,
Gera peixes azuis por causa da represa,
Línguas-de-fogo sobre a terra, a natureza,
O teu silêncio é um barão assinalado.
Imerso nesse rio em gozo alucinado,
Rio que vive de castelos nada mais,
Ninguém estanca o teu silêncio que ora vai,
Nos últimos arrancos__, quando a espada de Eros
O fere na carótida de extremo a extremo,
E abre a represa, e sangra em gozo alucinado,
Rio que vive no teu peito represado...
Germana, o Rio Jaguaribe está sangrando!
Unindo o raio do ouro ao mar que se escapela,
Como cinema mudo ou cena de novela,
__Germana! o Rio Jaguaribe está sangrando!
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros
XLVII
Um rio azul cortando o bosque o raio,
E essas águas que seguem curso adverso,
somos duas asas voando na clareira
Que é filha desse raio e dessa chuva.
Somos duas águas voando na chuva,
Gota dágua no pulso da nascente:
O raio é o coração da chuva louca,
Um simulacro só de águas partidas.
Somos uma artéria aberta para o mar...
Somos dois rios, talvez, talvez não somos
O bosque, num abrir e fechar d'olhos;
Somos dois rios que correm separados
Das terras que são donas dessas águas,
Com cada um de nós na ribanceira.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
XLVIII
Salta aos olhos a noite com seus túneis,
Seus longos corredores minerais;
A noite sobrevive ao edifício,
ao momento amarelo da saudade.
Salve as mãos do crepúsculo terrível
De árvores desfolhadas, pavorosas!
Fixam-se os olhos pra sempre no chão
Como um sinal de sangue e paz e guerra...
Nas dunas e falésias vão brotando
O sol de um novo mundo vai nascendo;
__As janelas dão vida ao edifício,
E uma mulher de mármore me acena!...
Água e terra aos seus olhos corredores
Sob a lua que governa esta canção.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
XLIX
Em seus espasmos de loucura mais suprema,
Comigo de cautela e com tal zelo e tanto
Que às vezes cai em pranto e rir amargamente;
Diáfano é o rio que corre dentro dela,
Que segue da janela a chuva de carvão.
Extinta no carvão, a flor do láscio vela,
Tantálica e doente o pó dessas gavetas,
Os alfarrábios dos macróbios lisboetas.
Entre cascalhos, vela a música suprema,
Em seus espamos de ventura e desventura,
__Com gritos de silêncio, abala o Aqueronte.
Contente e descontente é louca e assinalada,
E o seu amor tardio desvaria tanto
Que às vezes cai em pranto e rir nervosamente.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
L
Espalha-se em tua alma um fogo doloroso,
E esse vôo escarlate é um pássaro de fogo
Que se afoga no mar antes do sol nascer;
Terno e simples é o fogo da fogueira a arder.
Mas a paixão, porém, não tem simplicidade,
Tão triste que é o amor assim no entardecer;
Tão triste que é o amor envolto na fumaça,
Que faz do coração um mártir na fogueira,
Esse fogo é o móvel da paixão devassa,
Mas o gozo cruel é uma fogueira escassa,
Depois a cinza embaça o amor no entardecer...
Cheio de gosto e graça __ pássaro de fogo __
A tua alma em delírio escarlate esvoaça,
Tão ingênuo é o amor envolto na fumaça!
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
LI
Direi de tua espinha dorsal alexandrina,
Que abre a janela do sintoma e afina a voz,
Direi não é de tua conta ouvir minha voz,
Por isso ouve tua voz antes de ouvir a minha.
Meu corpo era uma lagoa calma tão serena...
Hoje é mar fremente. Prudente te acautela!
Amor não são ficadas nem baladas que,
Na lubrificação do sonho abre a janela,
Depois nos toca, e mata, e queima, e dá prazer;
Depois queimado o amor, o gozo desencana,
Estremecido na cama, tão triste que é...
Esse amor-envelope da internet, frio,
Esse depois vazio que a fumaça aponta
É a esatrela da manhã, a estrela de mil pontas.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
LII
A palavra é uma superfície circundante,
O belo artístico tem lá seu aqueronte,
Esse frio subterrâneo tem a sua estética,
Fertilizando o Nilo com a dialética
Que posta no lugar da natureza é meio
De se representar aquilo que não veio,
Unido ao meio essencial da negação;
__Esse rio represado é, pois, aquele veio
Que veio da matéria livre percebida,
O que também a gente inventa é o desejo,
A determinidade exclui de si a ética,
Na borda do desejo promove a dialética,
A janela e a memória poética
É o mistério gozoso da vida patética.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetos de Eros.
LIII
Com suas trezentas mil maneiras de morrer,
Pra todo sempre, em mim, desaparece e morre
Essa mulher assunta de garganta aberta,
Desfiladeiro aonde passa o meu desejo.
Eu não desejo o desejo teleológico,
Que me espera ao final de um dia cansativo
Para os mortos azuis de Francisco Carvalho;
A morte, com seu cão sagrado de Espinosa,
Pra todo sempre, em mim, desaparece__vai
Despedir as mulheres que ficaram loucas,
E a terceira navalha escapa entre os meus dedos...
De pé, dentro dos olhos, feita de palavras,
Fez-se a dona das palavras, as mais bonitas,
Mais que as éguas azuis de Fracisco Carvalho.
Helder Alexandre Ferreira em 100 Sonetosa de Eros
LIV
Silêncio estremecido sobre a cama veio
Alucinadamente no lugar de voyeur:
Silêncio cheio de loucura na matéria,
Que desmaterializa a ação motora. O corpo,
Que, pervertidamente, no lugar de voyeur,
Na condição de voyeur até a última baixeza
Pervertido, devasso, no vício do amor
É o silêncio aparente, passivo, sutil,
Que de forma sutil erotiza teu corpo,
Silêncio que desperta muita vez o voyeur
Que há em nós dois que como dois e dois são cinco...
O olhar espectador da fantasia veio,
Fantasiosamente no lugar de voyeur,
Despir o manto do silêncio pouco a pouco.
Helderpoetadirente em 100 Sonetos de Eros.
LV
A tua alma é uma roupa de brim branco engomada,
Transida de teu livro farto, comedido,
Um livro de bordel!... Um livro de prisão!...
Para além do desejo, o teu desejo vai
Substituir de resto a roupa que te cai;
Outra coisa é a metáfora ideal que sai;
Outra coisa é a vida cem por cento tédio,
De resto a loucura é teu único remédio.
__Transido de paixão, o violino infarta,
Estremecido na cama em silêncio mudo.
Suspensa em tua alma tão farta e comedida,
Cantando uma canção que faz morrer de tédio,
Infarta o mais moço dos anjos a volúpia
desses anjos montados em éguas azuis.
Helderpoetadiferente em 100 Sonetos de Eros.
LVI
Quando o teu rio desaparece no meu rio,
Somos o único oceano dessas águas,
Somos o único habitante do planeta,
Essa alienação a que tu chamas noite.
A estrela da manhã tem lá os seu credores,
A noite anseia o que não sente o pensamento,
Os sonhos por haver têm lá os seus cadáveres,
Têm a mais despojada e simples das loucuras.
Essa alienação a que tu chamas rio,
somos um único mergulho nesse rio,
A estrela da manhã falando enlouquecida...
Somos o úncio habitante desse rio,
e o rio é tudo o que se diz sobre o desejo,
__A metafísica tem lá os seu credores.
Helderpoetadiferente em 100 Sonetos de Eros.
LVII
Se a mente é pobre, o coração é bem vestido;
Eviterna extensão tem a vasta beleza,
Beleza que da terra sobre a face excele
As gemas do oceano que usa como adorno.
As águas extuantes deste rio e o bosque;
E o sol aurorejando com boa acolhida;
E o céu ao pé da musa antiga que fomento;
Do céu caiu no coração este instrumento,
Intérprete do amor, o metro é necessário,
E a palavra o recebe com boa acolhida.
As estrelas do céu para os versejadores
Que por esse feitiço sublimam suas dores,
De todo instinto e amor se nutre e se apropria
Petrarca e os arraiais do amor cantado em verso.
Helderpoetadiferente em 100 Sonetos de Eros.
LVIII
Exorbitas do vinho, esquecida na cama,
Na hora em que te vejo assim, modernamente,
Quando a taça derrama a música divina,
Teu escrever moderno, quanto à inspiração,
O violino estremecido sobre a cama,
Teus versos vão até os olhos das estrelas,
Porque tu tens a vaidade de um Calígula.
__Se ouvido humano te não ouve, apolo te ouve,
E derrama e prepara a música divina,
Pássaro és das auras mansas e dos orvalhos,
Teu vôo não tem o simbolismos dos Carvalhos;
Teu verso, doce flora, é música sonora...
Quebrem-se os meus grilhões de Roma, quando a música
Estremece teu corpo, tráfego cupido!
Helderpoetadiferente em 100 Sonetos de Eros
LVIX
LVIX
Dou-te éclogas bestificantes a pretexto
Da embriaguez que me desloca do contexto:
Desenganado da beleza de Diotima,
Para as adegas do prazer que me assassina,
Eu passo ao longe desse sonho de granito;
E este infinito mundo antigo de piegas,
A alma do vinho sempre canta nas adegas,
Conheço tanto quanto Sócrates conhece.
O meu amor carece de eternidade
Nestes convites corporais de sibarita,
Os conteúdos imorais da minha escola.
Ninguém se esquece da primeira coca-cola...
__Que dirás tu de meus convites corporais,
Dos conteúdos imorais do meu soneto?
helderpoetadiferente em 100 sonetos de Eros.
LX
Com flamante ímpeto, ódio e braço forte, à onda
Agrada comandar,com ar de vencedora,
O pequenino seixo que na praia mora,
A pedra de granito que o poeta sonda,
E o céu que bate na onda com furor salgado,
E turvos sóis são vistos do chapéu furado;
A jóia rósea e preta do dia que amanhece,
O mais negro do peito que, cheio de mágoa,
A noite não apaga, ao pé desta janela,
com ar de vencedora, a onda fataliza,
E a pedra então desliza do alto do divã.
A pedra é o olho fixo ao pé desta janela,
O pé pisando cada vez que se recorda,
Que no caminho acorda, e a vida fataliza,
Do céu então desliza a estrela da manhã.
Helderpoetadiferente em 100 sonetos de eros.
LXI
Esses olhos de um tempo antigo, louco,
Já piscam cheios da areia do sono,
Desemborcam em águas turmalina.
E toda a água são as letra de teu nome
Debaixo desse raio e dessa chuva,
Do vento e desse evento onde acontece
Um penhasco infinito de lembranças.
Plantio sazonável. Pôr-de-sol
No outono, pranto mudo na janela,
A música desliza insurgente, com raízes,
O seu canto insurgente com raízes,
Viaja com a luz inquebrantável;
Tece-se para sempre uma canção,
Tangida pelas mãos de um longo rio.
Helderpoetadiferente em 100 sonetos de eros.
LXII
No teu olhar existe um mar que se escapela,
Ouvindo o coração, ouvindo o próprio sonho:
Um a um precipitam-se do promontório,
ao mar, abrindo a vela, o sonho e o coração.
__Entra, que esse palor de âmbar dormido acorde
E sugue sem morder um coração cansado,
Faça unidade com a loucura e o desejo;
No meu olhar existe um viajeiro. Creio...
No teu olhar existe uma sereia rouca,
De prontidão tocando a corda que suspira,
Suspira de paixão, sugando sem morder,
Com boas intenções essa volúpia louca,
O violino estremecido, e a voz já rouca,
Suspira de paixão teu coração sem dono.
Helderpoetadeferente em 100 sonetos de eros.
LXIII
A vida é longa... A vida é breve... A vida é louca...
A via-láctea, amigo, é a véspera da loucura:
O sapato que tu puseste na janela,
essa breve loucura vista da janela
É uma longa loucura que te espera além...
__Vai! Dize não à reprimenda das estrelas,
Aquela estrela é bela e está restrita ao sonho!
Ora (direis) o que ela fala a mão escreve ,
Desliza pelo céu e não encontra nada
Além dessa loucura breve na janela...
A vida é uma loucura que de outra loucura,
Parece estar contigo aquela estrela bela,
Desperta para o pasmo de abrir a janela,
Teu sonho é uma janela que não tem censura.
Helderpoetadiferente em 100 sonetos de eros.
LXIV
És falta de asa vigorosa ascensional;
És ansiante, erguida num punhal sangrento,
Na dor e no lamento que sobe e que desce;
Nos aguaçais arquejam, com segunda voz,
Os sapos martelando essa balada atroz,
Beleza de langor! Beleza que faz mal!...
Anêmica mulher saída do hospital,
Teu seio exangue já murchado como alcova,
Cova de súcubos cruéis para o elegíaco
Contaminar-se nos miasmas de teu bico;
Por sobre a nebulosa capa alabastrina,
Enquanto a loba nutre as harpias mais cretinas,
A treva se adelgaça, e o crepe das cortinas
Acorda sapos sentinelas nas sentinas.
Helderpoetadiferente em 100 sonetos de eros
LXV
Os meus desejos recalcados dançarão
Sobre o objeto primário da satisfação,
Numa coreografia de danados.
Na absconsa e estranha gruta qual vasos furados,
Ratos esfomeados na lata do lixo,
Por um suposto no capricho de malsão,
Os mil anos de sonho e desejos mancos
Vão subindo às paredes pesados tamancos.
Os saltimbancos de carranca desdentada,
Ficam de frente pra janela escancarada,
E o negro véu esconde a luz outrora branca.
__Quando ensurdecem meus ouvidos fica a musa
Paralisada na janela que me acusa
com a carranca desdentada de malsão.
Helderpoetadeferente em 100 sonetos de eros.
LXVI
Meu peito era vazio e treva antes de Febo;
A celebrada musa antiga está no sebo;
Fascínio no peito de atávica beleza...
Quando os olhos se excitam de delicadeza,
Os braços para cima, o porte de princesa,
Debutante e coquete com trinta e dois dentes.
De andar manso, sutil, vai forçando a estrada,
Escondida emboscada, sempiternamente,
Essa caixa torácica (as grades do peito)
De garras para cima, calcando o firmamento,
Por que o poeta estude seu comportamento.
__Deu-se por satisfeito, ó Deus, que essa costela
Agora com trinta e dois dentes, resultante,
Apresentou-se com sendo a minha amante?
Helderpoetadiferente em 100 sonetos de eros.
LXVII
Eu sofro a intervenção da noite na janela,
E em pago disto acordo para ouvir aquela
Estrela que desliza quando abro a janela,
E sinto um sensualismo quente em minhas peles...
Eu nego no banquete a força das mulheres,
A dança do demônio da luxúria em que elas
Deslizam na descida do desejo delas,
Aquelas cujo rosto eu vejo nas colheres.
Eu vejo a minha mão no corpo das mulheres,
Eu sofro a intervenção do mítico Pausânias...
__Escuto-te, mulher de todas as mulheres!
Estrela da manhã de mim compadecida:
Amor e culpa vão pela inferanl descida,
Gozando na subida do desejo reles.
Helderpoetadiferente em 100 sonetos de eros.
LXVIII
É tão contrário a si no coração;
É um suave ladrão solitário entre a gente,
sonho defunto, o amor acorda descontente,
E desatina o coração, e toca, e mata;
É conformar-se com mil golpes de chibata;
É um lugar saqueado que a gente carrega,
A tanto o amor obriga por obra do amado,
É o amor cedo morto pelo fogo que arde,
Contente e descontente a prematuridade
Procura a nômade formosa da saudade,
Esta saudade que sentimos antes da hora;
É chama oculta que no inverno o peito aquece
O céu deste lugar com brilho transmontano,
Quando este rio se transforma em oceano.
Helderpoetadiferentedegermana em 100 sonetos de eros.
LXVIX
Disparem as granadas de teu sol,
Tua boca se tingiu de violeta.
Disparem meus pulmões os calafrios,
Suave esse crepúsculo em tua boca.
Esquecido dos beijos e da terra,
E da infância que juntos nós passamos,
Eu te quero emprestar meu pensamento
Ao caminho trilhado da amizade,
Ao caminho queimante da loucura,
Eu quero hipotecar minha loucura,
Disparem meus pulmões todo o verniz...
Esta chuva de arco-íris e metáforas
Qu espalha no estuário de tua boca
Que é de espécie específica loucura.
Helderpoetadiferentedagermana em 100 sonetos de eros
LXX
Amo uma mulher que escarra sangue e vê fantasmas;
Aquela ali, que veio dos jardins de Zeus,
Jogar farofa de ossos no ventilador;
Aquela ali, que vai dizendo nomes feios
Se vir na frente outra mulher de fartos seios;
Aquela ali, que tem alface na cabeça.
Eu amo uma mulher parnasiana e louca;
Aquela ali, que tem o corpo escaveirado,
Já teve namorado antes de ser modelo;
Aquela ali! que tem o bico de rapina,
Que toda vai desengonçada como uma garça,
Fugiu-lhe breve as carnes nessa dieta escassa.
Eu amo uma mulher tuberculosa e feia;
Aquela ali! de corpo esquálido, magrela,
Nos êxtases supremos de uma passarela!
Helderpoetadifeenedegermana em 100 sonetos de eros.
LXXI
Constringi-te o silêncio aqui bastantemente.
Em não te desatar a voz da língua eu vejo
Perceberes a cópia apenas do desejo;
Este comboio fingue tão completamente,
Que insuspeitado se insinua em tua mente,
Bênção é a arquitetura em sonho percebida,
Os êxtases supremos da infernal descida,
A boca malferida vai sentar-se à mesa.
E ao ver-te assim tão bela, e tímida, e indefesa,
Neste momento de silêncio e de beleza,
Quando obedeces ao desejo de sonhar,
Não faças caso, meu amor, por gentileza:
Se Apolo fere a minha lira presumida,
A consciência deste sonho tem mais vida.
helderpoetadiferentedegermana em 100 sonetos de eros.
LXXII
De gozo e extrema-unção, alta luta e tormento,
O sonho é um esplendor de tintas com que pinto
A estrela da manhã em graça e formusura!
O sonho modifica a sorte dos reveses,
Exibe seus paveses, quando o salso argento,
Aqui me estringe a campa e me sacode com
Sonhar de olhos abertos toda a noite enquanto
O tão sublime amor que explende e acende a pira
Do pensamento assim jamais dito de boca,
Cintila, e o pálio aberto, excelso, e o estro inspira
Cediços pensamentos de estesia louca.
O sonho presta culto a cada coisa louca,
A bem de um louco amor jamais dito de boca,
A beleza do sonho está nos baixos temas.
LXXIII
Índice do desejo aprisionado __ a fala,
Violino estremecido sobre a cama em fúria,
Não tem mais irmandade com a criatura,
A fala anda perdida meio a selva escura.
A fala se debela na infernal descida,
Não tem mais irmandade com o pensamento;
A fala é uma mulher muito inconveniente,
Que antes de levantar da cama abre a janela;
A fala despencou do sonho, enlouquecida,
Por sobre o lodo do desejo, retorcida,
A fala realiza a morte do desejo,
O gozo da certeza em seu abismamento,
A fala é um poço artesiano de lamento,
A fala é o estradivário sobre a cama em fúria.
LXXIV
Tua voz não satisfaz em mim nenhum desejo
O sonho nunca passa perto da janela
Nem valeria a pena abrir esta janela
Se o teu desejo fosse igual ao meu desejo
Tua voz é para alucinar o meu desejo
Tua voz protege os loucos do pior desejo
Tua voz é ponto de partida da loucura
Tua voz se satisfaz com ser a produtora
A tua ação motora, a coisa desejada
Tua voz encontra a fantasia desejada
Tua voz embaralhada à estrela da manhã
Em ti vibrando alucinhada no divã
De pensamento em pensamento errando errando
Tua voz se satisfaz abrindo uma janela
LXXV
A carne armou a rede, e sonha, e fantasia...
O desejo atravessou as paredes do quarto...
Ouves a música das águas subterrâneas
A socorrer os náufragos gritos da morte.
A carne é uma avenida urbana e perigosa,
Inculta e bela até a última baixeza:
A carne é meretriz de pantomima trágica,
Ouvindo a voz cansada, e rouca, e tonta,
E quase morta de silêncio e solidão;
Suas lágrimas são rios subterrâneos que correm,
E socorrem os náufragos gritos da morte;
O poeta atravessa as paredes da carne,
Em que ele arma a sua rede, e sonha, e fantasia
O corredor que leva ao ventre das palavras.
LXXVI
De toda via láctea é o meu amor,
Cheio, mas que ao depois fica vazio:
Em abono da insônia este soneto
É por demais pequeno para mundo.
Fez-se a tarde... E os cabelos se acresceram
À flor final do dia, e aos violinos;
(Terão cheiro de lua os violinos?)
Em abono da insônia este segredo
De alcova é o meu amor, e me confere
A mim é o que me importa tão-somente,
E ao beijo teu que vai ficar comigo.
As janelas do quarto estão abertas
Para dar vida e voz aos violinos
Em abono da estrela da manhã.
LXXVII
Essa diáspora de pedras no caminho,
O desconhecimento ao longo dessa estrada,
A mola do desejo oculto está em cada
Edifício amarelo. E a labareda negra
É a rosa vermelha de sangue em ereção,
Essa fogueira linda a arder no coração,
Armada, essa diáspora subiu o rio,
Liberta no significante do vazio;
Ao sopro da procela aumenta o poderio,
As folhas secas do papel onde o vazio
É o que basta à fantasia e ao significante.
Do céu levantam-se as estrelas, e as estrelas?...
As estrelas serão notícia de jornal,
degradadas a papel de embrulhar sabão.
LXXVIII
Escude-te, ó minh'alma, com a beleza!
Em cores super-realistas fica quieta,
Não deixa que o prazer algoz de quão abjeta
Possessão amaldiçoada de outro esteta
Se te venha aos gazões unir de outro poeta.
__Acautela-te, minha alma desse mal,
Do precioso metal enterrado na lama:
O esgar blasfemo de semblante tumular,
Os pés postos na lama __afogada em orgias__
Tal beleza se pinta de cores sombrias,
Se veste como a tarde cinza de um lugar...
A minh'alma sucumba! E nem em pensamento
Surpreendê-la jamais consiga o gozo fácil
Dessa pantera que se chama a Flor do Láscio.
LXXIX
Estas flores do mal! Estes versos malditos
Assistiram, contritos, à última quimera!...
Exalando detritos infames de lama,
Estes frutos benditos que os deuses nos dão,
Cintilante quimera vestida de fogo,
São as flores do mal, são as regras do jogo,
Daquele sonho antigo que agradava ao peito,
Sonho de amor perfeito ao lado de outra fera,
Inseparável companheira, esta pantera,
Em versos de um proscrito poeta que era,
Ao lado de outra fera, a fera inevitável,
Que segue a formidável última quimera.
__Estes mil anos de recordações escritas,
Proscritas na gaveta do criado mudo,
Mofado quase tudo amarelo e doente!...
LXXX
Quando as facas furam o zinco de teu quarto,
Serpentes vão buscando o brilho de tua luz:
Aquela estrela que tu ouves da janela
É a permanência transcendente das eróticas
Do corpo, a torre de babel, onde o desejo
Ajuda a proliferação dos epiciclos;
Aquela estrela foi furtada ao espaço trágico,
Foi dissolvida em pequenos armilares.
Os epiciclos oculares são os olhos
Do fogo convertido em neve; e é tão sublime
Ouvir estrelas e banhar-se no esplendor
Da escuma fria de arcangélica brancura!
Em hausto de agonia, o corpo é a selva escura,
Até que no mar alto os olhos da amargura
__Sejam as armas e os barões assinalados.
LXXXI
Esta janela não dá nenhum prazer:
Socavo o barro da existência que umedece
Este suposto esférico amor que sobe e desce
Como um terçol queimando a pálpebra de Zeus.
Eu tenho os olhos na surpresa da janela,
Naquela rosa geométrica, sem nexo,
Que há de unir agora o côncavo e o convexo;
Eu contemplo o que há de silêncio e maravilha,
Suspenso da amplidão do céu onde palmilha
Esse crepúsculoo de barro que anoitece,
Esse cavalo de São Jorge (rosa de aço)
Esse chapéu por onde canta o rouxinol.
__Como um terçol queimando a pálpebra do sexo,
Eu tiro sarro da mulher parnasiana.
LXVIII
É tão contrário a si no coração;
É um suave ladrão solitário entre a gente,
sonho defunto, o amor acorda descontente,
E desatina o coração, e toca, e mata;
É conformar-se com mil golpes de chibata;
É um lugar saqueado que a gente carrega,
A tanto o amor obriga por obra do amado,
É o amor cedo morto pelo fogo que arde,
Contente e descontente a prematuridade
Procura a nômade formosa da saudade,
Esta saudade que sentimos antes da hora;
É chama oculta que no inverno o peito aquece
O céu deste lugar com brilho transmontano,
Quando este rio se transforma em oceano.
Helderpoetadiferentedegermana em 100 sonetos de eros.
LXVIX
Disparem as granadas de teu sol,
Tua boca se tingiu de violeta.
Disparem meus pulmões os calafrios,
Suave esse crepúsculo em tua boca.
Esquecido dos beijos e da terra,
E da infância que juntos nós passamos,
Eu te quero emprestar meu pensamento
Ao caminho trilhado da amizade,
Ao caminho queimante da loucura,
Eu quero hipotecar minha loucura,
Disparem meus pulmões todo o verniz...
Esta chuva de arco-íris e metáforas
Qu espalha no estuário de tua boca
Que é de espécie específica loucura.
Helderpoetadiferentedagermana em 100 sonetos de eros
LXX
Amo uma mulher que escarra sangue e vê fantasmas;
Aquela ali, que veio dos jardins de Zeus,
Jogar farofa de ossos no ventilador;
Aquela ali, que vai dizendo nomes feios
Se vir na frente outra mulher de fartos seios;
Aquela ali, que tem alface na cabeça.
Eu amo uma mulher parnasiana e louca;
Aquela ali, que tem o corpo escaveirado,
Já teve namorado antes de ser modelo;
Aquela ali! que tem o bico de rapina,
Que toda vai desengonçada como uma garça,
Fugiu-lhe breve as carnes nessa dieta escassa.
Eu amo uma mulher tuberculosa e feia;
Aquela ali! de corpo esquálido, magrela,
Nos êxtases supremos de uma passarela!
Helderpoetadifeenedegermana em 100 sonetos de eros.
LXXI
Constringi-te o silêncio aqui bastantemente.
Em não te desatar a voz da língua eu vejo
Perceberes a cópia apenas do desejo;
Este comboio fingue tão completamente,
Que insuspeitado se insinua em tua mente,
Bênção é a arquitetura em sonho percebida,
Os êxtases supremos da infernal descida,
A boca malferida vai sentar-se à mesa.
E ao ver-te assim tão bela, e tímida, e indefesa,
Neste momento de silêncio e de beleza,
Quando obedeces ao desejo de sonhar,
Não faças caso, meu amor, por gentileza:
Se Apolo fere a minha lira presumida,
A consciência deste sonho tem mais vida.
helderpoetadiferentedegermana em 100 sonetos de eros.
LXXII
De gozo e extrema-unção, alta luta e tormento,
O sonho é um esplendor de tintas com que pinto
A estrela da manhã em graça e formusura!
O sonho modifica a sorte dos reveses,
Exibe seus paveses, quando o salso argento,
Aqui me estringe a campa e me sacode com
Sonhar de olhos abertos toda a noite enquanto
O tão sublime amor que explende e acende a pira
Do pensamento assim jamais dito de boca,
Cintila, e o pálio aberto, excelso, e o estro inspira
Cediços pensamentos de estesia louca.
O sonho presta culto a cada coisa louca,
A bem de um louco amor jamais dito de boca,
A beleza do sonho está nos baixos temas.
LXXIII
Índice do desejo aprisionado __ a fala,
Violino estremecido sobre a cama em fúria,
Não tem mais irmandade com a criatura,
A fala anda perdida meio a selva escura.
A fala se debela na infernal descida,
Não tem mais irmandade com o pensamento;
A fala é uma mulher muito inconveniente,
Que antes de levantar da cama abre a janela;
A fala despencou do sonho, enlouquecida,
Por sobre o lodo do desejo, retorcida,
A fala realiza a morte do desejo,
O gozo da certeza em seu abismamento,
A fala é um poço artesiano de lamento,
A fala é o estradivário sobre a cama em fúria.
LXXIV
Tua voz não satisfaz em mim nenhum desejo
O sonho nunca passa perto da janela
Nem valeria a pena abrir esta janela
Se o teu desejo fosse igual ao meu desejo
Tua voz é para alucinar o meu desejo
Tua voz protege os loucos do pior desejo
Tua voz é ponto de partida da loucura
Tua voz se satisfaz com ser a produtora
A tua ação motora, a coisa desejada
Tua voz encontra a fantasia desejada
Tua voz embaralhada à estrela da manhã
Em ti vibrando alucinhada no divã
De pensamento em pensamento errando errando
Tua voz se satisfaz abrindo uma janela
LXXV
A carne armou a rede, e sonha, e fantasia...
O desejo atravessou as paredes do quarto...
Ouves a música das águas subterrâneas
A socorrer os náufragos gritos da morte.
A carne é uma avenida urbana e perigosa,
Inculta e bela até a última baixeza:
A carne é meretriz de pantomima trágica,
Ouvindo a voz cansada, e rouca, e tonta,
E quase morta de silêncio e solidão;
Suas lágrimas são rios subterrâneos que correm,
E socorrem os náufragos gritos da morte;
O poeta atravessa as paredes da carne,
Em que ele arma a sua rede, e sonha, e fantasia
O corredor que leva ao ventre das palavras.
LXXVI
De toda via láctea é o meu amor,
Cheio, mas que ao depois fica vazio:
Em abono da insônia este soneto
É por demais pequeno para mundo.
Fez-se a tarde... E os cabelos se acresceram
À flor final do dia, e aos violinos;
(Terão cheiro de lua os violinos?)
Em abono da insônia este segredo
De alcova é o meu amor, e me confere
A mim é o que me importa tão-somente,
E ao beijo teu que vai ficar comigo.
As janelas do quarto estão abertas
Para dar vida e voz aos violinos
Em abono da estrela da manhã.
LXXVII
Essa diáspora de pedras no caminho,
O desconhecimento ao longo dessa estrada,
A mola do desejo oculto está em cada
Edifício amarelo. E a labareda negra
É a rosa vermelha de sangue em ereção,
Essa fogueira linda a arder no coração,
Armada, essa diáspora subiu o rio,
Liberta no significante do vazio;
Ao sopro da procela aumenta o poderio,
As folhas secas do papel onde o vazio
É o que basta à fantasia e ao significante.
Do céu levantam-se as estrelas, e as estrelas?...
As estrelas serão notícia de jornal,
degradadas a papel de embrulhar sabão.
LXXVIII
Escude-te, ó minh'alma, com a beleza!
Em cores super-realistas fica quieta,
Não deixa que o prazer algoz de quão abjeta
Possessão amaldiçoada de outro esteta
Se te venha aos gazões unir de outro poeta.
__Acautela-te, minha alma desse mal,
Do precioso metal enterrado na lama:
O esgar blasfemo de semblante tumular,
Os pés postos na lama __afogada em orgias__
Tal beleza se pinta de cores sombrias,
Se veste como a tarde cinza de um lugar...
A minh'alma sucumba! E nem em pensamento
Surpreendê-la jamais consiga o gozo fácil
Dessa pantera que se chama a Flor do Láscio.
LXXIX
Estas flores do mal! Estes versos malditos
Assistiram, contritos, à última quimera!...
Exalando detritos infames de lama,
Estes frutos benditos que os deuses nos dão,
Cintilante quimera vestida de fogo,
São as flores do mal, são as regras do jogo,
Daquele sonho antigo que agradava ao peito,
Sonho de amor perfeito ao lado de outra fera,
Inseparável companheira, esta pantera,
Em versos de um proscrito poeta que era,
Ao lado de outra fera, a fera inevitável,
Que segue a formidável última quimera.
__Estes mil anos de recordações escritas,
Proscritas na gaveta do criado mudo,
Mofado quase tudo amarelo e doente!...
LXXX
Quando as facas furam o zinco de teu quarto,
Serpentes vão buscando o brilho de tua luz:
Aquela estrela que tu ouves da janela
É a permanência transcendente das eróticas
Do corpo, a torre de babel, onde o desejo
Ajuda a proliferação dos epiciclos;
Aquela estrela foi furtada ao espaço trágico,
Foi dissolvida em pequenos armilares.
Os epiciclos oculares são os olhos
Do fogo convertido em neve; e é tão sublime
Ouvir estrelas e banhar-se no esplendor
Da escuma fria de arcangélica brancura!
Em hausto de agonia, o corpo é a selva escura,
Até que no mar alto os olhos da amargura
__Sejam as armas e os barões assinalados.
LXXXI
Esta janela não dá nenhum prazer:
Socavo o barro da existência que umedece
Este suposto esférico amor que sobe e desce
Como um terçol queimando a pálpebra de Zeus.
Eu tenho os olhos na surpresa da janela,
Naquela rosa geométrica, sem nexo,
Que há de unir agora o côncavo e o convexo;
Eu contemplo o que há de silêncio e maravilha,
Suspenso da amplidão do céu onde palmilha
Esse crepúsculoo de barro que anoitece,
Esse cavalo de São Jorge (rosa de aço)
Esse chapéu por onde canta o rouxinol.
__Como um terçol queimando a pálpebra do sexo,
Eu tiro sarro da mulher parnasiana.
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